Um exemplo de espiritualidade bíblica e sadia  

 

Patrick Cezar da Silva

 

 

 

 

Em toda a narrativa bíblica notamos a presença de homens que temeram a Deus e que desenvolveram uma espiritualidade a partir de um profundo relacionamento com Deus. Essa espiritualidade sadia e bíblica diz respeito a uma clara compreensão daquilo que somos e da Pessoa de Deus com quem nos relacionamos.

Temor, reverência, devoção, contrição, adoração, confiança e profundo desprendimento são características fundamentais para que Deus seja honrado pelo que é e para que haja um aprofundamento nesta espiritualidade que pretendemos desenvolver com Ele. Neste relacionamento, onde temos Deus como alvo e Senhor de nossa espiritualidade, devemos entender que cada dia é um dia de aprendizado para nós seres humanos criados por Ele para o seu louvor e glória.

Dessa forma, encontramos na Bíblia exemplos de servos de Deus que desenvolveram uma espiritualidade coerente e respaldada nos Ensinos Sagrados. Personagens que aprenderam, em meio a situações contrárias e de profunda oposição, a ter e a manter esta espiritualidade bíblica.

 

O exemplo de um profeta
Um desses personagens que gostaríamos de destacar é o profeta Elias que carregava em seu nome o sinal de sua devoção e caráter - “Meu Deus é o meu Senhor!”.

No texto bíblico que registra os fatos mais marcantes da vida do homem de Deus, I Reis 17-19, notamos como sua vida foi marcada por eventos onde a graça e o poder de Deus foram evidenciados de forma bastante nítida. No entanto, também notamos um Elias com fraquezas e possuidor de uma personalidade marcada por momentos de melancolia acentuada.

No inicio do capitulo 17 de I Reis presenciamos o profeta vivenciando momentos de grande experiência com o sobrenatural, onde Deus manifesta a sua provisão através de corvos (v. 6), realiza um milagre na casa da viúva em Serepta (v. 14), ressuscita o filho da viúva (v. 22). Através desse ultimo fato a viúva pôde glorificar a Deus confirmando o ministério de Elias como profeta do Altíssimo (v. 24).

Porém, é no grande embate contra os profetas de Baal que o Deus de Elias, o nosso Deus, manifesta a Sua Grandeza, Majestade e Poder. Durante este evento podemos destacar os seguintes fatos: a) Elias confronta o Rei Acabe e o povo – “até quando vocês vão oscilar para um lado e para o outro?” (18.21); b) Logo em seguida, o profeta passa a restaurar o altar do Senhor que estava em ruínas (18.30-32); c) O profeta passa a clamar ao Senhor em oração e diz: “Responde-me, ó Senhor, responde-me, para que este povo saiba que tu, ó Senhor, és Deus, e que fazes o coração deles voltar para ti.” (18.37). Assim, Deus manifesta, mais uma vez, o seu poder e envia fogo como resposta a oração de Elias e ele consome todo o sacrifício e ainda lambe a água que estava ao redor; d) Como uma atitude imediata, o povo reverencia ao Senhor e declara em alta voz: “O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!”.

Através destes fatos podemos retirar possíveis aplicações para a nossa vida devocional que de forma sucinta passaremos a destacar-las.

 

Espiritualidade a partir do exemplo
Há momentos em nossa vida cristã que nos afastamos da vontade de Deus para nós e isso leva que Deus use meios, ou pessoas, para nos confrontar e nos fazer amoldar a sua vontade. E diante desta confrontação Deus nos pergunta: “Até quando?”.

Até quando iremos balançar diante de outra possibilidade que não seja fazer a vontade de Deus? Até quando a possibilidade de realizarmos os nossos sonhos será a mais prazerosa e encantadora do que cumprir a vocação e o ministério que o Senhor nos concedeu? Até quando? Até quando? Até quando? .... Ressoa a pergunta do Senhor.

No entanto, além de nos confrontar, o Senhor envia a possibilidade de nos voltarmos para Ele e termos o nosso altar restaurado. Um altar onde o nosso EU é sacrificado todos os dias com as nossas vontades e desejos pecaminosos. Onde só existe lugar para oferecermos o mais profundo sacrifício que honra e glorifica ao nosso Pai.

Então, só assim, com as nossas consciências confrontadas e o nosso altar restaurado é que Deus pode manifestar o seu poder em nossas vidas e no meio daqueles que estão ao nosso redor. Como bem enfatizou Josué as vésperas da travessia do Jordão: “Satinfiquem-se, pois amanhã o Senhor fará maravilhas entre vocês.” (Js. 3.5).

 

Espiritualidade em meio às fraquezas
Mesmo assim, todas estas manifestações divinas que marcaram a vida e ministério de Elias não o livraram de ser seduzido por seu próprio coração e por suas fraquezas.

Em I Reis 19.3, lemos: “Elias teve medo e fugiu para salvar a sua própria vida.” Mas de que, ou de quem, Elias teve medo? Como um profeta que momentos atrás tinha enfrentando com ousadia a afronta de 450 profetas de um deus estranho viria a temer agora? Elias temeu por sua vida por causa das afrontas e ameaças que a rainha Jezabel fez contra ele, por isso ele fugiu.

Aqui, o profeta, parece irreconhecível. Diante dos profetas de Baal Elias demonstra valentia, coragem e um espírito destemido, porém aqui um ser humano fraco, frágil e temeroso por sua vida.

Com isso aprendemos que na vida cristã passamos por momentos semelhantes ao de Elias. Momentos onde Deus nos restaura, nos concede a sua graça e a sua unção para realizarmos a sua obra. Mas por causa de nossas próprias imperfeições, provocadas pelo pecado, falhamos e por isso deixamos de nos sentir super-crentes, poderosos e cheios de nós mesmos e passamos a sentir que somos realmente humanos, impotentes, vulneráveis e totalmente dependentes de Deus e de sua graça.

E para ensinar isso ao profeta Deus vai mais uma vez ao encontro dele, que estava escondido em uma caverna. Então, Deus lhe pergunta: “O que você está fazendo aqui, Elias?”.  Mas parece que o profeta não entende a pergunta divina, então Deus se manifesta novamente, porém, agora, de outra forma especial. Deus usa um terremoto, fogo, no entanto a presença de Deus é manifestada através de um “murmúrio de uma brisa suave.” E assim, o Senhor, concede a Elias mais uma chance para responder a sua pergunta: “O que você esta fazendo aqui, Elias?”.

Esta é a grande pergunta que deveríamos responder para nós mesmo quando o Senhor que conduz a História nos leva para a caverna. Para aprender o que o Senhor me trouxe para aqui? Qual o objetivo de eu estar aqui na caverna?

Quando o profeta entendeu isso Deus pôde o encaminhar para a conclusão do seu ministério. Só depois de passar pela caverna é que ele pode continuar o ministério que recebeu do Senhor. Então, o Senhor falou para Elias: “volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco.” (19.15) A partir daqui o profeta recebe a missão de ungir aos lideres do povo e aquele que seria o seu sucessor (19.19-21).

 

Conclusão
Através do exemplo da espiritualidade que o profeta Elias desenvolveu em sua vida podemos entender que Deus deseja a nossa restauração. Apesar das nossas falhas Ele deseja nos usar na realização de sua obra, basta, tão somente, termos o altar de nossas vidas preparado diariamente para ouvir o que Ele tem a nos dizer e disposição em nosso coração para sacrificar vontades, sonhos e desejos e nos dobrarmos ao Senhor que é Rei do nosso viver.

Que Deus nos ajude!