Um ensaio sobre a adoração

Por: Pr. Leonardo Félix

 

 

 

1. O que significa adorar?


A adoração a Deus deve ser o propósito maior de tudo o que a igreja faz. Tudo o que ela realiza desde atividades triviais, às mais específicas e complexas todas precisam ser feitas para a glória de Deus. Através delas o adorador evidencia a quem ele serve. Em nossos dias é comum ouvirmos pessoas acreditando que adoração é uma atribuição daqueles que estão à frente dos grupos musicais da igreja. Esse equívoco tem colocado muitos cristãos numa situação desprivilegiada.

Realmente, se adoração e música fossem sinônimas poucas pessoas adorariam a Deus. Não quero com isso desconsiderar o lado da música. Ele foi, e deve continuar sendo um instrumento poderoso na adoração cristã. Os salmos bíblicos são um exemplo de como a música tem seu lugar no culto cristão. Eles eram cantados sob o acompanhamento de instrumentos músicas. Contudo, a adoração fluía do coração do salmista e não dos instrumentos que ele tocava, ou que o acompanhavam.

Adorar é uma atribuição de honra e glória a Deus, por ser ele o tesouro de nossas vidas. Quando adoramos honramos a Deus. Os louvores são entoados em reconhecimento da graça do Senhor sob a vida. O salmista expressou sua adoração dizendo: “Dêem graças ao Senhor porque ele é bom” (Salmos, 106.1). A bondade de Deus é razão para adorá-lo. Em todos os momentos dessa vida podemos perceber a bondade dele sobre nós.

O Senhor é bom, pois nos dar os alimentos sobre a mesa, mesmo sem merecermos. Ele poderia nos privar de tal bênção se agisse segundo os nossos pecados. Entretanto, ele permite que saciemos nossa fome mesmo quando o pecado nos mancha. Deus é bom e sua misericórdia está sobre nós.
Se contarmos as bênçãos de Deus sobre nós teríamos razões suficientes para não cessar de adorá-lo. O cuidado dele deve nos impulsionar a reconhecermos o seu poder e a sua majestade. É importante que Deus seja revelado ao coração do adorador. Quando isso acontecer o mundo ganha sentido, e a mão de Deus se torna visível em cada situação.
Adorar requer que vejamos o amor de Deus em cada circunstância. Paulo entendeu isso ao recomendar aos cristãos de Corinto: “quer vocês comam, bebam, ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1 Co 10:31). A atividade rotineira de se alimentar precisa ser transformada em culto ao Senhor. A dona de casa deve fazer de suas atividades domésticas um ato de adoração a Deus; o zelador, precisa limpar cada objeto em honrar ao Senhor. Pois tudo o que fazemos, fazemos em adoração ao nosso Senhor.

2. Os dois extremos no culto a Deus

É visível em todo culto a manifestação de influências culturais e sociais, além das espirituais. Em alguns lugares os cultos tendem mais a espontaneidade. Em outros, a formalidade é reverenciada. A questão é: qual desses estilos reflete a verdadeira adoração? Será que é possível adorar em meio a gritos, danças, e choros? Ou será que o culto precisa ser ordeiro e engessado a ponto de não ser permitida qualquer ação que não esteja em sua programação?

Os extremos são perigosos. Valorizar uma manifestação de adoração em detrimento de outra é uma questão de juízo subjetivo, pois a forma pode ser variada, mas a essência pode ser a mesma. Um irmão pode ter o seu coração sincero e adorar a Deus num culto espontâneo. Do mesmo modo, a formalidade na liturgia pode ser a expressão da sinceridade do coração de um adorador. 

O problema se torna evidente nessa questão quando uma forma é enfatizada com a única forma de culto. Conheço muitos irmãos que se sentem bem em cultuar a Deus da sua forma, porém chegam a menosprezar os cultos aonde as manifestações vão de encontro a sua forma ordinária de cultuar. Os judeus acreditavam que o culto a Deus deveria ser em Jerusalém, mas os samaritanos no monte (Jo 4:21). O lugar era a questão. Aquilo que era essencial não estava em questão. 

Nossa preocupação deve está naquilo que é essencial. O coração sincero é o que Deus espera dos seus adoradores. Aquilo que eles percebem de Deus se expressa através de seus corpos em culto a Deus (cf. Rm 12:1). Jesus trata o que é essencial dizendo: “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4:23). O espírito quebrantado Deus não rejeita (cf. Sl 51:17). Um coração que contemple a sua pecaminosidade e reconheça o favor de Deus em adoração a ele é mais importante do que a forma vazia de sinceridade.

3. O Ato de Adorar

A adoração pode ser caracterizada em pelo menos três aspectos. Primeiramente é um ato subjetivo. Dois irmãos nas mesmas circunstâncias adoram a Deus de forma diferente. Alguns se emocionam mais facilmente, outros são mais contidos em suas emoções. Não há sentimentos e emoções exatamente iguais entre os adoradores. Deus quer receber de cada um de nós adoração segundo as nossas características pessoais.

Em segundo lugar a adoração acontece em reconhecimento da graça de Deus sobre a vida do adorador. A provisão divina é um dos fatores que mais produzem adoradores. Deus providenciou o seu Filho para morrer na cruz do Calvário e levar sobre si as nossas penas. Aqueles que foram iluminados pelo Espírito Santo podem perceber isso com o coração de tal forma que o seu coração se enche de gratidão a Deus. Além disso, o sustento diário, a saúde, os bens etc. são todos vindos da mão do Senhor e o adorador sabe muito bem.

Em terceiro lugar, o ato de adorar é a valorização de Deus pelo coração do adorador. Só adoramos aquilo que atribuímos valor supremo. Aqueles que vivem nas trevas adoram seus recursos, são amantes de si mesmo e por isso oferecem um culto idolatra. Costumo dizer que não há um lugar vazio no coração do homem. O fato é que sempre há um deus. Se não for o Deus da bíblia, é algum dos ídolos desse mundo - que não são poucos.

A expressão inglesa “worship” que traduzida para o português significa “adorar”, contudo ela é formada de duas palavras que juntas significam “valor reconhecido”. O adorador deve expressar o seu amor por Deus em sua adoração. A ignorância da obra de Deus em seu Filho tem deixado os nossos cultos vazios de adoradores. O que de Deus podemos conhecer em sua palavra é suficiente para adoramos a ele com tudo o que somos. Se o amor de Deus não for implantado em nossos corações nossos lábios nunca darão frutos de louvor sinceros ao Senhor.

A pergunta que deve ser feita é: quem, ou o que é o nosso tesouro? O que consideramos de valor supremo em nossas vidas? O que considerarmos de valor supremo será o nosso Deus. Dessa forma, é possível que estejamos dando um culto idolatra se não for o Senhor da bíblia o nosso tesouro.

 

Fonte: Crítica Sagrada