Superando a dor do luto

Sem. Ana Chagas

 

 

A dor de perdermos alguém a quem amamos nunca é fácil de ser superada. Nosso ente-querido se vai... Ficam as suas boas lembranças; momentos de alegria, momentos que foram especiais- momentos que foram somente nossos... Cada um de nós começa então a remoer na mente, como se fosse um filme, cada momento, cada palavra, cada gesto, até mesmo cada olhar de cumplicidade num momento em que bastou um olhar para comunicar uma aprovação ou um desapontamento... Tudo fervilha... Nosso rosto queima, e mais ainda queimam as lágrimas... Pois, quem é assim tão forte que não se entregue à dor de uma perda tão grande? Ninguém é super- homem ou super- mulher, que passe por isto sem desmoronar. Deus nos permite chorar por quem se foi; Ele só não nos permite que deixemos de viver por causa desta perda, nem nos permite morrer

junto com aquele nosso ente-querido que se foi; pois ainda não é chegada nossa hora; tudo está em suas mãos. Deus ainda tem propósitos em nossa vida aqui na terra: E nada, nem ninguém podem frustrar os seus Santos planos. Chegará a nossa vez de partir também, disso podemos ter certeza (exceto se Jesus voltar antes); porém, devemos erguer a nossa cabeça, mesmo que ainda derramando lágrimas de saudade, mesmo que ainda seja difícil olhar para o nosso lado e não o encontrar mais seja no Lar, no trabalho, na Escola, na Igreja ou ainda na cama, quando se trata do esposo ou da esposa.
Devemos prosseguir, ainda que às vezes pareça que só conseguimos nos arrastar, devemos sempre prosseguir. Deus nos garantiu que estaria conosco todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt 28.20b); Ele não nos deixa sozinhos nunca; Ele é o nosso auxílio nessas horas tão dolorosas. Não pecamos em chorar por quem se vai, temos este direito. Quando não choramos, mas retemos ou negamos a dor e não queremos aceitar a realidade; esta atitude com certeza trará conseqüências maléficas para a nossa saúde. E Deus quer o nosso bem. Ele nos quer firmes e fortes para dar continuidade à sua obra, ao que Ele nos confiou aqui na terra; cabe a nós buscarmos a sua direção.

Permitam-me compartilhar da minha experiência pessoal de perda. Já perdi muitas pessoas muito especiais para mim, amigos, parentes, etc. Mas nenhuma dor se comparou à dor de quando perdi o meu pai. Foi uma experiência muito dolorosa, naquele momento pensei até que iria morrer junto com ele. Recuei-me por muitos dias do mundo lá fora, fiquei deprimida... Mesmo sabendo que ele estava com Deus e que não haveria outro lugar melhor onde ele pudesse estar... Mas eu chorei a sua morte... até que as lágrimas foram diminuindo... Quando sofremos a perda, pensamos que vamos morrer junto com aquela pessoa quem amamos.

Mas Deus, o nosso Paizinho Celestial, que nos ama, que quer nos ver bem, sempre nos consola. Ele nos sustenta com a sua destra Fiel; Ele passa do seu bálsamo no nosso coração. Eu pude experimentar deste seu Santo Cuidado para comigo e para com toda a minha família. Hoje já se passaram quase treze anos que sofremos esta tão grande perda, mas o Senhor está sempre conosco e nos fortalece dia após dia.
Hoje paro e penso: Minha cabeça mudou, minha visão também mudou em relação à morte.

A Psicologia diz que todo ser humano é egoísta quando não quer de forma alguma deixar que o outro se vá; até mesmo quando sabe que a morte será o melhor para ele diante da situação de enfermidade que ele está enfrentando, ou se já estiver em estágio terminal da doença, nós, em nosso egoísmo, preferiríamos que ele ficasse conosco, embora sofrendo dores terríveis que nem sequer pode compartilhar conosco, pelo fato de já não poder sequer falar. Concordo que somos mesmo egoístas; digo isto pela minha própria experiência: O meu pai estava muito doente, tinha a Síndrome de Machado Joseph (Doença Genética Degenerativa do Sistema Nervoso Central- tipo SCA 3); ele estava sofrendo muito, tanto que um dia, sem agüentar mais ver o seu sofrimento, eu comecei a orar e dizer: “Senhor, por favor, tire o meu pai deste sofrimento! Não deixe que ele continue a sofrer assim!”... E fui embora para a minha casa com o meu esposo e meu filho mais velho (único na época). Os dias se passaram... Ele começou a piorar... Eu e a família já não saíamos mais de perto dele. Numa tarde, sentei-me ao seu lado e recitei versículos bíblicos para ele, cantei o seu hino favorito (“Maior”- Cícero Nogueira), e pude perceber que, mesmo em meio à dor, o seu espírito se alegrava em Deus naquele momento. Para mim, um momento de tristeza, mas para ele um momento de maior comunhão com Deus. E eu não entendia...
Depois de alguns dias ele piorou de tal maneira, que entrou em coma. Eu queria que ele voltasse do coma, eu queria que ele ficasse... Mas Deus, que é Soberano, e sabe o que é melhor para cada um de nós e que já determinou o dia do término do nosso tempo aqui, decidiu levar o meu querido paizinho. E chegou o grande e terrível dia... Quando isto aconteceu, eu estava com ele, ainda o abracei, senti e ouvi as últimas batidas do seu coração, gritei para que ele ficasse; mas Deus é que tem o total domínio da situação, então, quem era eu, e ainda agora, quem sou eu para tentar impedir o agir de Deus? Depois do velório, cerimônia fúnebre e sepultamento veio a pior fase: tentar enxergar o mundo sem a presença dele; tentar não imaginar ele em cada um dos nossos momentos dentro da casa. Fiquei na casa deles por uns dias, ainda não queria sair daquele panorama, ainda queria estar pertinho da minha mãe. Parecia que o medo de também perdê-la aumentou depois daquele momento. Foram longos dias em que relutei, e chorei, e fiquei interrogando a Deus o porquê de ele ter levado o meu pai, já que eu o amava tanto... Porém, lendo a Bíblia, sem imaginar que Deus falaria tão de maneira tão forte e profunda comigo, abri no Evangelho de São Lucas 1.13, “na parte a” do versículo, onde diz: “Mas o anjo lhe disse: Não temas, Zacarias, a tua oração foi ouvida.”Quando li estas palavras, o Senhor falou fortemente comigo e me disse: “Tu oraste a mim pedindo que o tirasse do sofrimento, oraste pedindo que eu fizesse a minha vontade: Eu te ouvi.” E naquele momento, Deus me mostrou aquela cena do momento em que olhando para o meu pai, orei a Ele, como se tudo estivesse acontecendo novamente diante de mim. E então o meu coração foi consolado por Ele. E depois disso, o processo de reestruturação dos meus sentimentos e pensamentos se estabeleceu.
Hoje, depois de quase treze anos, recordo do meu pai com um profundo carinho, e ainda mais, o meu coração se enche de alegria ao lembrar que em breve estarei reencontrando o meu pai na glória do céu, e ainda melhor: Lá ele será totalmente são, terá um novo corpo, totalmente saudável, sem quaisquer limitações e sem corrupção alguma (Glória a Deus!) e poderei me alegrar em ver o gozo que ele estava desfrutando no Seio de Abraão, com o Senhor. E tomarei parte também, juntamente com todos os santos na vida eterna, onde estaremos para sempre com o Senhor.
Analisando o meu sentimento na ocasião da perda do meu pai, concordo com o que diz a Psicologia, no tocante ao egoísmo do ser humano. Sentimos “pena” de nós mesmos, e preferimos não sofrer ainda que nosso ente-querido continue sofrendo diante dos nossos olhos. Eu me vi assim, como uma pessoa egoísta, me entregando à autocomiseração. E não é isso o que Deus quer de nós, não é isso que Ele espera de nós diante dos seus desígnios, mas sujeição e gratidão.


Perdi ainda, recentemente, meu irmão mais novo (34 anos), também acometido da mesma doença que afligiu o nosso pai. Sofremos muito, apesar de sabermos o quanto ele estava sofrendo; mas novamente Deus trouxe a Sua Palavra ao meu coração e aos poucos, fui sentindo o seu consolo. Dou graças a Deus, pois em 2008 estive em São Paulo visitando minha mãe e meus irmãos, e pude conversar muito com este meu irmão acerca do Evangelho. Ele havia freqüentado a igreja quando era criança, íamos sempre à Escola Bíblica Dominical, mas, ao crescer, ele havia se afastado. E o que me alegra agora é poder lembrar suas palavras, mostradas letra a letra em seu cartaz do alfabeto (pois já não conseguia falar), em uma das noites em que estava com eles, ao final de uma conversa: “Ana, você veio aqui para reacender algo que estava adormecido no meu coração. Eu estou sentindo algo maravilhoso.” Ele demonstrou ali que o Senhor havia lhe dado vida.
Glória a Deus, pois, mesmo em meio às maiores tormentas, Ele traça o caminho para o seu propósito.
E algo que tenho aprendido é que, quanto mais vivemos momentos difíceis e em meio às tormentas da vida sentimos a mão de Deus nos cuidando, ficamos cada vez mais maravilhados diante da sua Soberania e Amor, e cada vez mais nos prostramos diante dEle em adoração.

Que você possa, assim como eu, enxergar o Senhor nos moemntos difíceis que vier a passar, que não seja egoísta, mas deseje o melhor para quem você ama, e compreenda que Deus tem a nossa vida em suas mãos. E o mais importante, enquanto você e eu ainda estamos vivendo aqui, façamos valer à pena. Como? Servindo ao Senhor, pois se passarmos por este mundo sem ter servido a Deus, vivemos uma vida sem razão de ser; pois foi para isso que fomos criados, e é vivendo de forma que glorifica a Deus que somos as pessoas mais felizes do mundo, mesmo passando por lutas; pois o nosso Porto é na eternidade, onde estaremos bem juntinho dele para sempre.