A salvação integral do homem  

Pr. Leonardo Félix

 

 

 

Todo o homem foi afetado pelo pecado de Adão. A desobediência do primeiro homem ecoou sobre a existência de toda a sua descendência (Rm 5:12). Onde há um ser humano, ali há a tendência ao mal. Esse fato está na caracterização de todo nós. Isso nos revela que, ao lidar com os homens, não podemos nos esquecer do pecado em sua alma. Os deslizes dos nossos irmãos são melhores compreendidos quando temos uma visão realista da sua condição como pecador.

A causa de muitos dos nossos sofrimentos está no esquecimento de que o outro é um ser corrompido pelo pecado assim como nós. Jesus sabia que lidava com uma humanidade doente (Mt 9:12).

Os doentes precisam de nossa compreensão e não da nossa justiça. Quem diria a um enfermo: você não pode desfalecer! Diante da enfermidade alheia precisamos nos compadecer. Os que exigem dos doentes uma saúde que eles não têm sofrerão com a impossibilidade do outro.

O pecado nos afetou em todas as dimensões da existência. Fisicamente o pecado nos fez vulneráveis à morte. O afastamento do homem do jardim tirou o seu contato com a árvore da vida (Gn 2:9). A desobediência fez com que ele perdesse o privilégio da imortalidade. Logo, a sina do homem foi morrer diariamente até o dia em que o seu corpo voltaria ao pó e o espírito para Deus (Ec 12:7).

O avanço das tecnologias tem tentado estancar a ação do tempo sobre os homens. A indústria de cosmético lança fórmulas que prometem o rejuvenescimento. Entretanto, sua formulação não pode conter o avanço da morte. Não há fórmula humana que possa parar o que Deus determinou.

Outra dimensão afetada pelo pecado foi a intelectualidade humana. Essa capacidade nos distingue do outros animais. O pensamento lógico foi nos dado para que pudéssemos refletir a glória de Deus no cuidado da natureza e no relacionamento com ele, com o próximo e conosco mesmo. A evolução do pensamento humano nos mostra a capacidade superior que temos sobre o restante da criação. Somos capazes de investigar um átomo, e fazer viagens pelas galáxias.

Porém, ela também é utilizada para justificar, explicar e normatizar o pecado. Os homens em seus devaneios encontram argumentos para fazerem aquilo que Deus abomina. Argumenta-se, por exemplo, que o casamento homossexual é uma permissão divina, uma vez que alguns já nascem homossexuais. A base desse argumento é buscada nos estudos genéticos. Alguns cientistas buscam a prova de que os homossexuais são um terceiro gênero, e assim criados por Deus para gostarem daqueles que são do mesmo sexo.

A racionalização do pecado também é um problema para nós cristãos. Diferente do que se pensa, ser cristão é conviver com o pecado. Entretanto, sem lhe dar espaço. Paulo disse o seguinte: “Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam” (Gl 5:17 NVI). O desejo natural de todo homem é dar condições para que o pecado domine sobre a sua vida. Na tentativa de se fazer senhor novamente sobre nossas vidas, o pecado produz pensamentos que justificam o erro e o estimulam.

Não podemos nos deixar enganar pelo pecado. Assuma um posicionamento crítico contra tudo que você pensa. Há argumentos que surgem para sabotar os planos de permanecer firme em Deus. Contra a sexualidade, o prazer carnal não é melhor do que agradar ao Senhor; em nossos negócios, é melhor ganhar o pouco em paz com Deus do que enriquecer em injustiça.

Na dimensão social nossos relacionamentos foram interrompidos e rompidos pelo pecado. Deus nos criou com seres sociais. Dependemos do outro para aprender os valores e as normas culturais de nossa sociedade. Uma criança sabe que roubar não é correto pelos valores que os seus pais lhe passam. Da mesma forma, muitos dos nossos gostos são definidos pelos gostos das pessoas mais próximas.

O pecado fez o homem olhar para o seu umbigo e desprezar o outro. O pensamento moderno fez do homem o centro de todas as coisas. Cada um deveria ser autônomo. Isso produziu uma sociedade egoísta a ponto de nos tornar mais sensíveis aos bens que desejamos do que às necessidades do próximo caído na calçada. A remissão de Cristo nos liberta do pensamento egoísta e restaura a nossa condição de seres solidários (Mt 22:38,39; cf. 1 Co 12:27).

Por fim, nossa dimensão espiritual foi drasticamente afetada pelo pecado. A desobediência de Adão ocasionou a morte espiritual, quer dizer, a alienação para com Deus. O homem se tornou incapaz de se mover em direção a Deus. Ele é semelhante ao um morto, que não age, nem reage às coisas de Deus.  A morte espiritual do homem não o permite viver em obediência à lei do Senhor. O que Deus ordena é tido com algo sem sentido e impossível de ser realizado.

Em Cristo o homem recebe a graça da vida. O Espírito Santo nos capacita a amar a Deus com toda nossa vida e perceber a sua soberania sobre o universo. O prazer passa a existir na fidelidade a Deus. Os mandamentos do Senhor deixam de ser fardos pesados, e se tornam o caminho para a deleite nele.

Portanto, que possamos gozar a restauração integral de nossas vidas em Cristo Jesus. Ele é a nossa salvação e nele recebemos de volta a harmonia de Deus em todas as dimensões de nossa existência.

 

Fonte: Crítica Sagrada